[O que andei lendo] City, de Clifford D. Simak

“A controvérsia que cerca a lenda pode ser resumida a uma questão: o Homem existiu? Se ao ler esses contos, o leitor se ver confuso, estará em excelente companhia. Os especialistas e os estudiosos que passaram suas vidas estudando a lenda podem ter mais dados, porém estão tão confusos quanto você.”
Notas sobre o sétimo conto

Mesmo com centenas de milhares de anos de civilização, a sociedade canina ainda não conseguiu responder a pergunta levantada por um conjunto de histórias, passadas de geração em geração. Pesquisadores como Jagunço, Rover e Bolota tentam separar mito e realidade, o que realmente aconteceu do que é uma ficção construída para dar base a sociedade dos Cães, pacífica e empática, que viaja entre mundos coblies praticamente a sua vontade.

O Homem existiu?

Será?

Uma figura mítica e quase patética, que matava seus semelhantes, que se deixava limitar pelos seus medos, que perdeu o convívio com seus semelhantes após o declínio das cidades – e que ao mesmo tempo, segundo essas histórias, criou os robôs e deu aos Cães a habilidade de falar, elevando-os de meros cachorros. Uma pena que tenham sumido, perdidos no mundo original de onde vieram os Cães.

Se pelo menos fosse possível viajar ao passado e verificar isso – porém, como os cientistas caninos sabem, a viagem ao passado é impossível, pois não nos movemos no tempo e sim o levamos junto conosco: o que aconteceu é um outro universo, ligado ao nosso em uma corrente infinita de momentos infinitesimalmente diferentes do em que viajamos pela existência.

Resta aos Cães apenas essas histórias, fragmentadas e míticas, em que apenas Jenkins, o robô, e Nathaniel, o primeiro Cão, são comprovadamente históricos. É quase uma unanimidade que o Homem seja apenas uma antítese ficcional ao Cão, uma figura de linguagem que destaca todos os elementos positivos canino por ser seu contraponto perfeito.

Mas Jagunço insiste e aponta, em suas notas sobre as histórias, que há fortes indícios que um dia Homem e Cão andaram juntos, mão e pata unidas.

Se você acredita que a Ficção Científica é a previsão do futuro, City vai decepcioná-lo. Porém, se o seu barato é uma boa história, contada de forma criativa e talentosa, é um livro que merece a leitura. Além de ser um retrato preciso do sentimento da primeira década da Guerra Fria, é um ensaio ficcional sobre algumas perguntas que nos fazemos: o que nos torna Humanos? O que dá valor a nossa sociedade? Será que um dia iremos nos extinguir, de forma violenta ou pacífica?

O romance é um fix-up, uma história composta por várias outras interligadas por um fio condutor narrativo. No caso, City é composto de 8 contos, cada um antecedido por uma nota explicativa, redigida em cima dos apontamentos dos melhores estudiosos caninos sobre o assunto. Cada conto foi publicado durante a década de 1940 na revista Analog – um epílogo foi escrito na década de 1970, para participar de uma edição de memorial para o mítico editor da revista, John W. Campbell – e o tema principal é a lenta decadência da raça humana e a ascensão dos Cães.

Vida em sociedade

O cenário visto hoje acaba sendo retrofuturista: a primeira história se passa em 1994 e somos apresentados a um esvaziamento das cidades, provocado pelo medo de um ataque nuclear (reflexo da Guerra Fria, o que o tornava uma ameaça muito presente na Ficção Científica da Golden Age), o transporte aéreo de média distância acessível e o sucesso da agricultura hidropônica. Isso faz com que a população, bastante diminuída em consequência dos embates passados, prefira deixar os aglomerados urbanos e se espalhar pelo campo. Em uma cidade, um homem de sobrenome Webster adquire as terras e resolve transformar seus arredores em um memorial, preservando os costumes antigos e permitindo que quem não tenha se ajustado ao novo modo de vida tenha um lugar.

A partir daí acompanhamos os Webster subsequentes, que acabam se mostrando uma linhagem de grande importância para o destino da humanidade, e as figuras que vão surgindo no seu entorno. Juvain é um filosofo marciano prestes a fazer uma descoberta que irá abalar os paradigmas da civilização humana, mas que sofre de uma doença fatal. Jenkins, o mordomo-robô dos Websters, que os acompanha até o final, e seus demais companheiros autômatos. Os mutantes, como Joe, o mecânico que gosta de provocar mudanças sociais em formigas, e que são humanos que, além de extremamente inteligentes, se dissociaram completamente do sentido de Humanidade, de coletivo.

E os Cães.

Nossos fieis companheiros são aqueles que herdarão a terra e no entanto, sua memória sobre nós se apagou. Em todas as notas, eles destacam o caráter mítico dos contos, mesmo que um ou outro possua elementos que possam ser baseados em algo histórico. A voz que defende a nossa existência é a de Jagunço, uma minoria entre os demais estudiosos. Afinal, pelo que podemos perceber das notas e das histórias, nosso modo de vida e de pensar é tão absurdo, tão incongruente, que os Cães, por serem criaturas civilizadas, não conseguem ver como poderíamos ter existido e desenvolvido a sociedade que aparece naquelas histórias.

Para os Cães, por exemplo, matar é algo inaceitável. Ninguém tira a vida de outro e mesmo os animais carnívoros foram ensinados a não matar. Como poderiam aceitar então o conceito de assassinato? E o de guerra?

Uma civilização pacífica

É difícil classificar City em termos de distopia/utopia, como anda em voga ultimamente. O seu lento definhar da humanidade é claramente distópico, pois mostra um processo de afastamento entre os homens, porém a sociedade canina se mostra uma utopia, construída com base no que tínhamos de melhor e deixamos de herança para os Cães.

Ao ser lido tantos anos depois, o livro causa alguns estranhamentos – mas não muito diferentes dos causados pela grande maioria das obras suas contemporâneas. O temor reverencial pelo potencial atômico da humanidade é um deles, e a ausência quase total de personagens femininas é outro, bastante marcante. Porém, as que surgem são bem construídas – o que é mais do que se pode dizer de muitos textos da Golden Age. O cerne das preocupações do livro são extremamente norte-americanas, como o conceito de cidadania e urbanidade que aparecem na primeira parte do livro, mesmo quando a localização muda.

Alguns dos conceitos defendidos por Simak também saltam aos olhos como ultrapassados, como o lamarckismo na parte biológica e a hidroponia como solução para o problema da fome no mundo. Outros continuam intrigantes até hoje: o transumanismo como solução para habitar outros mundos, o tempo como não-linear, como uma constante: ao tentar viajar no tempo, o que se encontra é uma outra dimensão, não o passado ou o futuro da nossa.

Como escritor, Clifford D. Simak conseguiu em City algo muito difícil: fez um fix-up que realmente se lê sentindo que é um romance, não um apanhado de contos no mesmo universo com uma ligação fraca entre eles servindo como desculpa para colocar em um único livro sem chamar de coletânea. O debate entre os Cães é orgânico, ajuda a construir uma trama que não está aparente nos contos e a unificá-los. O estilo varia um pouco entre as histórias, o que é notado pelos debatedores, inclusive sendo um dos critérios para considera-las mais ou menos verídicas – um artifício muito bom para justificar a diferença de tom entre pedaços escritos com um espaço de tempo considerável entre eles.

Debate acalorado entre acadêmicos Caninos

A edição disponibilizada em ebook na série SF Masterworks da Gollancz também traz o epílogo, que não é introduzido por uma nota, mas por uma explicação do autor. O conto saiu, como dito aqui antes, em um memorial para o editor que publicou os demais contos. É bem mais melancólico do que os demais e traz o destino de Jenkins, após tantos milênios de vida, um fechamento adequado para o romance.

O humanismo de Simak fala muito alto em todo o livro, nos lembrando de nossos defeitos e de nossas qualidades, do que somos capazes para o bem ou para o mal. É curioso que um livro sobre o que é ser humano seja focado na ascensão de uma civilização Canina.