Como queima um museu?

Em 02 de setembro de 2018, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista pegou fogo durante quatro horas. 

Tentar explicar a vocês a importância de um museu – e principalmente daquele museu – é como explicar a importância do oxigênio para a vida humana na Terra. Para mim, é um fato dado, claro como água, o óbvio ululante. É a cultura que nos faz humanos, que nos diferencia de outros primatas, que nos trouxe ao ponto em que estamos – seja ele bom ou ruim.

Talvez em um país como o nosso esse óbvio não seja tão ululante. Como dar a dimensão da perda que sofremos ontem? Eu teria que escrever um livro, não um post. Um livro que falasse da construção do prédio, por um traficante de pessoas escravizadas, e da sua “doação” à família real, fugida dos exércitos de Napoleão, da sua criação como museu, do seu uso para eventos políticos marcantes – a assinatura da declaração da independência, a primeira constituição nacional, como repositório de parte do imenso acervo deixado para trás pelo imperador exilado.

Talvez um segundo volume que falasse da formação do seu acervo, do meteorito de Bendegó encontrado no sertão da Bahia e transportado, mais de cem anos depois, para o Rio; das peças egípcias compradas pelo nosso primeiro imperador enquanto estavam a caminho do seu comprador original; a pesquisa incansável de nossos etnólogos e etnógrafos juntando pedaços e vestígios de povos que não mais existem (ou que existem e preferimos fingir que não); o trabalho pioneiro e árduo de nossos cientistas – sem condições e sem estrutura – que escavaram e coletaram fósseis, inclusive o homem mais antigo das Américas. Por acaso, é uma mulher.

Um terceiro volume poderia falar das pessoas? Dos diretores, dos pesquisadores, dos visitantes… E talvez das múmias, testemunhas silenciosas de tanta coisa, sobreviventes de séculos e séculos, vítimas de um incêndio. E no quarto, um compêndio listando todas as pesquisas? Para finalizar, um anexo com as mais de 20 milhões de peças.

Não ia ser o bastante. Ia faltar. Por mais que eu escrevesse, ia faltar muito, porque a dimensão do que se perdeu não se descreve com palavras. Perdemos passado, mas o pior é que apagamos um futuro – um futuro que poderia sair das pesquisas ali sendo conduzidas.

Hoje, li muitas coisas sobre o museu. Relatos doloridos demais dos muitos amigos (nem eu imaginava que tinha tantos) que trabalham, trabalhavam, estudam ou estudavam ali. A tristeza dos visitantes e simpatizantes (nos quais me incluo) que tinham no museu um repositório de lembranças e momentos felizes. Os lamentos dos que nunca o puderam conhecer. E, claro, a desinformação, de quem não o conhecia até ontem e, ao conhecer, o desprezou.

Quando um museu desses queima, se não há uma causa externa inescapável – um raio ou uma bola de fogo cuspida por um dragão – a culpa é grande demais para ser atribuída a uma pessoa só, a uma instituição só, a um partido só, a um governo só.

Imagem: Fernando Souza/Adufrj

Quando um museu desses queima, depois de tantos avisos, tantos pedidos de ajuda, tantos clamores, é porque em algum nível falhamos enquanto sociedade. Ficamos perdidos no meio do processo civilizador e ao invés de retomarmos o caminho adiante, retrocedemos.

O quanto retrocedemos? Uns 12.000 anos. A idade de Luzia, a mulher que era até ontem o homem mais antigo das Américas.

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